sábado, fevereiro 11, 2017


Do Resgate da Sinagoga Micaelense
      à Perpetuação dos Legados Judaicos (2)

1. Tal como já tive ocasião de reafirmar por várias vezes e em diversas ocasiões, o resgate – digamos mesmo – da condenação derradeira e do abandono e ruína a que estivera votada, e a posterior recuperação patrimonial da Sinagoga de Ponta Delgada e dos seus constituintes bens e integrantes legados histórico-culturais, documentais e religiosos devem-se principalmente aos múltiplos empenhos, perseverante dedicação e consequente trabalho pessoal do historiador e investigador micaelense José de Almeida Mello, dinâmico presidente da Associação de Amigos da Sinagoga Sahar Hassamaim.



Incansável, persistente e muito frutuoso, todo o labor de coordenação (e mais do que isso, desde o início, de liderança) do Dr. José de Mello, tem de resto contado com o merecido e clarividente apoio da autarquia dirigida pelo Dr. José Manuel Bolieiro e sua equipa camarária (nomeadamente do vereador e vice-presidente Dr. Fernando Fernandes), sendo que, deste modo – o único realmente possível, a par de conhecidos suportes familiares e empresariais regionais, dos beneméritos incentivos de várias instituições judaicas norte-americanas e de algumas notórias solidariedades individuais e locais mais ou menos detectáveis e permanentes (conquanto, infelizmente, bem menores do que seria de esperar hoje...) – em conjugação de esforços, projectos e realizações efectivas, a obra já feita por esse incansável pesquisador e estudioso está todavia agora suficientemente consolidada e amadurecida para poder dar novos e maiores passos e frutos qualitativos, de entre os quais, subscrevo e reitero mais uma vez nesta oportunidade, a criação de um Centro de Estudos Judaicos dos Açores (velha aspiração de José de Mello), em Ponta Delgada, junto da sua emblemática e conatural Sinagoga (cuja denominação tenho proposto seja a de Centro de Estudos Judaicos Alfredo Bensaúde), enquanto se vai simultaneamente avançando no presente com a promoção e abertura programática (Colóquios, Simpósios, Cursos Livres, Evocações, Iniciativas Editoriais, etc.) para mais amplos horizontes e confluentes actividades e realizações temáticas no âmbito da História dos Judeus em Portugal e no Mundo, da Presença Hebraica nas Ilhas dos Açores, da Cultura Sefardita e do Pensamento Judaico, entre muitos outros relativos ao Povo e ao Estado de Israel...

– E é assim, no domínio editorial acima referido, por exemplo, que tenho vindo a recomendar e a louvar, associando-me à ideia (que sei estar em devido propósito anunciado) de proceder-se à publicação em livro de toda uma série de artigos, estudos e preciosa documentação inédita que Almeida Mello tem vindo a pesquisar, reunir e criteriosamente divulgar na imprensa regional, e que tem sido acolhida pelo “Correio dos Açores” (CA) que nisto presta, conforme à sua antiga e melhor tradição, um bom serviço cultural à nossa sociedade.

Porém vem isto aqui precisamente ainda a propósito da última série de artigos que José de Almeida Mello tem editado no CA, conforme em Crónica anterior comecei a realçar, ou não tivesse também eu sido chamado a participar na análise, debate e dialogado tratamento confluente das matérias ali tratadas ou sugeridas, mormente aquelas que em muito dizem respeito à ilha Terceira, no cenário descrito ou apelativamente proposto à problematização...

– Voltemos pois ao assunto, sinalizando hoje os principais núcleos da matéria histórico-documental neles aflorada, e cujas implicações e respectivos alcances são muito mais pertinentes e relevantes do que à primeira, desatenta ou passageira vista possa parece.

2. Na muito interessante e substancial sequência de um conjunto de 23 artigos temáticos sobre a Sinagoga de Ponta Delgada e a Comunidade Judaica micaelense, José de Almeida Mello publicou recentemente no CA, entre os dias 19 e 22 de Janeiro último – tal como tenho vindo a salientar – um longo artigo (Texto 24) dividido em 7 Partes e intitulado “Na Rota dos Legados Hebraicos de Ponta Delgada – Sobre as Toras da Sinagoga de Ponta Delgada e a Torah emprestada à Base das Lajes”.



– O artigo, sempre circunstancialmente balizado, como se irá recapitulando depois, para além de uma Introdução e de uma Conclusão geral, inclui fundamentalmente um inventário documental, cujo elenco de factos, acontecimentos e peripécias, cronologicamente alinhados por datas de ocorrência, assenta na selecção concatenada de Cartas e outras peças-fonte afins e relativas à História da Sahar Hassamaim, porém desta feita mais por relação directa não tanto à Comunidade Hebraica em si quanto ao que, ainda todavia respeitante a ela e envolvendo-a, se prende antes objectiva e intencionalmente com tudo o que diz (disse e dirá...) respeito à existência, percursos, percalços, tentativas de alienação e paralelos ou concomitantes esforços de preservação e resgate dos seus reciprocamente imbricados bens e patrimónios (isto é, os da Sinagoga e os da Comunidade, e cuja destrinça também aqui merecerá alguns diferendos...), particularmente as suas Toras e ainda mais concreta e especificamente sobre a(s) chamada(s) Tora(s) “de Rabo de Peixe” e “do Porto Judeu”, envolvidas ambas, como irei recordando de seguida, em narrativas, cenários e estórias nunca dantes realmente apurados em todos os seus misteriosos e enrolados contornos...

De resto, os textos que José de Mello vem continuando a publicar ainda mais incidem agora sobre o famoso episódio da Torah mediaticamente apelidada “de Rabo de Peixe”, a partir de cuja descoberta e nebuloso processo de recolha, identificação, guarida e propriedade muito de fabuloso e efabulatório (quando não, arriscadamente, de mistificador...) se disse e escreveu por todo o país e por esse mundo adiante.

3. Começa o citado artigo de José de Mello por remontar à origem de toda esta história da(s) Tora(s) rabo-peixense e porto-judense, fazendo-a regressar – e bem! – a um facto nunca até agora publicamente revelado e que constitui a chave-mestra indispensável para a decifração dos reais meandros que compuseram (e ainda compõem...) o rol de enigmas rodeando praticamente todas as narrativas, versões e especulações criadas à volta da dita história e que foram sendo tecidas desde 1970/71/72 até 1997 – mas com inúmeros hiatos, ocorrências e lacunas pelo meio... –, e que tem permanecido assim ora esquecidos, ora tacitamente dados por adquiridos, e por esses atalhos e veredas também reproduzidos simetricamente em reportagens, contos e lendas de cicerones turisteiros, mais ou menos dados a prosa fantástica e mimética, quando não delirantemente esotérica...




– Ora acontece que os variados documentos, na posse de Almeida Mello desde há cerca de ano e meio, e que foram trazidos dos Estados Unidos após consultas e diligências junto de um dos protagonistas desta história (o Rabino Nathan L. Landman), quando cruzados com as peças documentais e os testemunhos pessoais preservados e disponíveis nos Açores, todos juntos, configuram uma outra e totalmente diferente versão dos episódios da(s) aludida(s) Tora(s), permitindo-nos reenquadrá-los, de modo outrossim verosímil, fundamentado e comprovado (para não dizer desmistificador de relatos e posições individuais e institucionais (regionais, nacionais e estrangeiras), nomeadamente aquelas que foram produzidas por um militar norte-americano (o capitão Marvin Feldman, então estacionado na Base das Lajes) e (certamente de boa fé, conquanto, ao que tudo indica, na ausência involuntária de elementos de prova ou contraprova fiáveis) por um respeitável jornalista e investigador, especialista em assuntos israelitas e judaicos, como é Inácio Steinhardt.

A história de tudo isto, como continuaremos a ver e analisar – e que chega a abeirar-se de uma ficção fílmica quase à semelhança de outras divertidas produções e relatos fantásticos de salteadores de arcas e tesouros perdidos e achados, ou de manuscritos perdidos em grutas, esconsos poços e fundas cavernas bíblicas... – tem, apesar de tudo, algo de apaixonante, sem dúvida!

– Mas a Investigação Científica, com os seus métodos aplicados, tal como na Ciência Histórica positiva os mesmos são exigíveis, conquanto sem menosprezo da imaginação e da teorização racional e prospectiva, é fundamentalmente feita com base em provas reais, fontes sólidas e triagens críticas e logicamente confirmativas. E daqui, sem prejuízo de outras possíveis e livres narrativas, mais ou menos líricas (ou interessadas, sabe-se lá para alindar amiúde o quê!), não haverá fuga nem saída possível, por mais encantadora ou encantatória que seja a matéria no rolo da fantasia...

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Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.02.2017):




























“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 11.02.2017):




























e Azores Digital:







A Questão da Eutanásia em Debate
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ENTREVISTA À RDP-AÇORES (08.03.2017)

Em CANAL C:


http://canalc.pt/index.php/2017/02/13/entrevista-sobre-a-eutanasia-na-rdp-acores/




e RDP-Açores:

http://www.rtp.pt/play/p2903/grande-entrevista


domingo, fevereiro 05, 2017


Novas Figuras de Ambiguidade
no Debate sobre a Eutanásia




A questão da Eutanásia – como temos vindo a constatar e foi também aqui já salientado –, continua a preencher parte importante e calculada do espaço público, político-parlamentar e cívico actual, com uma série de debates, projectos legislativos anunciados, pronunciamentos, tomadas de posição, petições e manifestos provindos de grupos de cidadãos, associações, formações socioprofissionais, político-partidárias e religiosas, – a par da produção e divulgação de convicções, teses e opiniões variadas, e da realização de painéis de discussão mediática com a participação de agentes e actores de vários sectores societários e de juízo individual (embora o seleccionado leque de uns e outros não tenha sido sempre o mais paradigmático ou representativo das múltiplas sensibilidades e linhas de pensamento pessoal e institucional em palco ou relevância real, ou com natural e desejável direito e dever de voz face a esta bem relevante e fracturante questão).



 De resto, em moldes algo distintos dos circunstancial e classicamente tratados, com os crescentes e novos avanços hodiernos na Medicina, nas Ciências, nas Técnicas e nas Tecnologias, esta complexa, ambígua e multidisciplinar problemática tinha vindo, desde há muito, tinha sido reflectida e discutida, especialmente na Europa e na América, sendo já bastante vasta a matéria crítica e a literatura especializada produzidas neste âmbito, – que fora aliás recorrentemente perspectivado a partir de dissonantes e/ou revisionistas experiências, experimentações e configurações societárias, político-jurídicas, éticas, antropológico-culturais, psicossociológicas e espirituais consumadas e reformuladas, até hoje, em países e regiões como a Holanda, Bélgica, Suíça, França, Luxemburgo, Colômbia e nos Estados Unidos (em Oregon, v.g.).

– Por cá e entre nós, porém é de salientar os legítimos e referenciais contributos produzidos por instituições como o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, o Conselho Permanente da Conferência do Episcopado Português, a Associação dos Médicos Católicos Portugueses e a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, por exemplo, a par de contribuições tão díspares e antagónicas – conquanto, apesar de tudo, de algum potencial modo, talvez dialecticamente complementares – como as desenvolvidas, ou apenas esboçadas, entre outros, por Laura Ferreira dos Santos (cuja exaustiva, diligente e dramática seriedade filosófica e autenticidade existencial, até ao recente termo da sua vida, devo relevar aqui, mesmo tendo ela todavia teorizado a favor da despenalização da Eutanásia!)...


Todavia, por outro lado ainda, neste debatido contexto e em substancial e doloroso confronto com aquelas perspectivas, temos podido contar com os opostos posicionamentos esclarecidos e perfilhados por Daniel Serrão, Lobo Antunes, Walter Osswald, Patrão Neves, Roque Cabral, Rui Nunes, Costa Pinto, António Barbosa, Anselmo Borges, Michel Renaud, Isabel Galriça Neto ou Lucília Nunes, etc., – sem esquecer, naturalmente, o teor, ainda alinhado ou adversativamente constante, dos principais pressupostos e textos das duas conhecidas e antagónicas Petições em campo (“Toda a Vida tem Dignidade” e “Direito a Morrer com Dignidade”, esta última subscrita, entre muitos nomes conhecidos e intervenientes, por José Manuel Pureza, Boaventura Sousa Santos, Alexandre Quintanilha, Richard Zimler, Ana Zanatti, Mariana Mortágua, Pacheco Pereira, Isabel Moreira, Miguel Esteves Cardoso, Paula Teixeira da Cruz, Maria Filomena Mónica, António Sampaio da Nóvoa, João Semedo, Carlos Alberto Moniz e Laura Ferreira dos Santos).


Entretanto, propriamente a nível político-partidário e pela banda parlamentar nacional, ao que foi divulgado, estes temas deverão ser retomados em caldeação com a pendente apresentação de projectos de lei próprios ou alternativos (ou provavelmente juntos), e temos, dando (previsível) “liberdade de voto” aos seus eleitos, o BE, “Os Verdes”, o PAN (este mesmo que, piedosamente, tanto militou contra a eutanásia em cães de canil!), o PS, o PCP e o PSD... Quanto ao CDS, formalmente disse já que fará exibir um diploma em defesa “da dignidade das pessoas em fim de vida”...

Ora, como se vê, todo este debate sobre a Eutanásia (apesar da sua discutível oportunidade e/ou do respectivo, propiciatório ou expedito oportunismo conjuntural!) deverá prosseguir, atravessando diametralmente os perfis argumentativos e as tematizações possíveis desta mesma momentosa e grave questão, desde os mais fundamentados e sistemáticos às mais superficiais, subjectivas, egoístas, fúteis ou ideologicamente timbradas alegações.


– E assim sendo, mais se hão-de ir separando visões do mundo, perspectivas axiológicas e éticas, antropologias filosóficas, entendimentos, finalidades, ordenações constitutivas e aparelhos estruturais e super-estruturais da Sociedade, do Estado e do Direito, para além – evidentemente! – de se revelarem muitas e novas ambiguidades ontológicas e epistemológicas, sofismas, falácias categoriais e equívocos discursivos, conceptuais e práticos (como são os casos modelares das variáveis contextuais e das figuras axiológicas e accionais, adjacentes ou adjectivas – identitárias e histórico-cultural e socio-institucionalmente sempre mediadas – tais aquelas de Suicídio assistido; Autonomia de vontade; Liberdade de escolha; Morte assistida; Direito privado, soberano e incondicionado, a Morrer em paz; Criteriologia individual; Dignidade da pessoa; Legalização e Despenalização; Consentimento e fomento; Inviolabilidade e Direito à Vida, etc.).



Deste modo e recapitulando, portanto, tal como testemunhei antes, o tema da Eutanásia é complexo, amplo e exigente, nele cruzando-se ou devendo cruzar-se múltiplas e profundas questões-limite, pelo que não será possível nem legítimo centrar nem restringir nenhuma análise ou debate sério e sistemático sobre esta crucial problemática apenas a algumas das atrás aduzidas vertentes, subalternizando-se ou arrastando-se descoordenadamente, como acontece também por cá, em tempo, modo e alcance reais, a integrada e integrativa implementação, outrossim primacial, de Cuidados Continuados e Paliativos – insista-se! –, no competente e inalienável domínio público e privado de políticas generosas, solidárias, humanizantes e sustentadas de Saúde, de Assistência e de Segurança Social (mas também de Família, Habitação, Formação e Educação, Inspecção, Trabalho, etc.), verdadeiramente justas, prioritárias, exigentes e rigorosas, a nível nacional, regional e local.


– Ainda no âmbito de uma sucinta análise a estas matérias e seus enviesamentos que concedi ao jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 04.02.2017) a Entrevista cujo texto aqui adianto, assinalando as respectivas perguntas a negrito, seguidas das minhas respostas.

Petições parlamentares, debates e opiniões antagónicas recomeçaram a preencher o espaço público com o tema da Eutanásia. Como encara esta problemática?


O tema é complexo, amplo e exigente, nele cruzando-se ou devendo cruzar-se múltiplas e profundas questões-limite de ordem existencial (ético-filosófica, bioética e moral) com outras, talvez as mesmas ou confluentes, de ordem médico-antropológica, socio-histórico-cultural, jurídico-política, técnico-científica, psicossociológica, teológico-religiosa, etc. –, pelo que não é possível nem legítimo centrar nem restringir nenhuma análise ou debate sério e sistemático sobre esta problemática apenas a algumas daquelas vertentes, subalternizando, como acontece, a implementação, outrossim primacial, de Cuidados Continuados e Paliativos, no âmbito de políticas de Saúde e de Assistência e de Habitação, etc., verdadeiramente justas e prioritárias! 



Todavia, perante os últimos debates, mormente nos OCS e na Assembleia da República, é exactamente o contrário que tem acontecido, felizmente com honrosas excepções e testemunhos de vida vivida em coerência com consequentes valores teórico-práticos e simbólicos que são da ordem de um superior personalismo e de uma radicalidade ontológica compassível e solidária perante o Sofrimento e a Dor, o abandono e o desamparo, o medo e a angústia de todos os seres humanos perante os espectros da Morte e o mistério do fim da Vida neste mundo...



Como professor e como cidadão, que vantagens e riscos encontra na formulação destas questões?

Vantagens, no despertar das consciências e apelos ao incremento e urgente generalização da reflexão e da acção pessoal e institucional sobre este tema e seus nunca escamoteáveis pressupostos de princípio, pulsões, pretextos e enormes implicações a todos os níveis, hoje e no futuro...


Riscos, na projecção e transferência (eventualmente imprudente, leviana ou enviesada!) para a ordem e configuração jurídico-normativa (constitucionalmente por apurar!) do nosso País (por via parlamentar, partidariamente veiculada e conjunturalmente sustentada, ou por discutíveis recursos referendários) de mecanismos ou artifícios que poderão conduzir a situações altamente inquietantes nos contextos e condicionalismos hospitalares, assistenciais e familiares que nos rodeiam, entre outros que me escuso de desenvolver aqui...



No presente contexto, como analisa as actuais propostas político-legislativas que visam legalizar a Eutanásia?

– Conheço as Petições apresentadas sobre a Eutanásia e os seus principais e diferentes mentores, historiais e valores inspiradores (cuja nobreza de intenção não discuto, mas cujo alcance temo...).

Muitos dos discursos a que temos assistido – para além de assentarem em casuísticas e/ou retóricas objectivamente controversas, abstractas ou não consensuais – desatendem de uma série de factores e categorias decisivas (como sejam a autonomia das pessoas e suas vontades temporalmente validadas; a delegação ou procuração individual num campo de potencial conflito de interesses; as balizas do direito à vida/morte e à auto-determinação absoluta em matéria de saúde, doença e tratamento; a garantia da objecção de consciência dos profissionais de saúde, etc., muitas delas ressaltando do chamado “Testamento Vital”, como dizia o Prof. Lobo Antunes, que é no fundo “uma modalidade de afirmação de autonomia por parte de um indivíduo são”, uma autonomia prospectiva por parte de quem não tem “a capacidade de antecipar todas as situações clínicas possíveis...”.

– Porém nada disto veicula derradeiras palavras ou percepções. E por isso mesmo a própria lei deveria, antes de mais, acatar um princípio de precaução, que é aqui também uma reserva de verdade sobre a condição humana, o seu sentido e o seu destino.
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(*) "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 04.02.2017):






















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Na sequência da Entrevista do dia 04.02.2017, a 1.ª parte do texto "Novas Figuras de Ambuguidade no Debate da Eutanásia foi publicada em "Diário Insular"(Angra do Heroísmo, 07.02.2017):


Outras edições do texto integral:
Canal C:
http://canalc.pt/index.php/2017/02/11/novas-figuras-de-ambiguidade-no-debate-sobre-a-eutanasia/:

Azores Digital:
RTP-Açores:



sexta-feira, janeiro 27, 2017


Do Resgate da Sinagoga Micaelense
à Perpetuação dos Legados Judaicos (1)



1. Na continuação dos seus múltiplos e anteriores trabalhos de investigação e excepcional recolha histórico-documental, já amplamente reconhecidos e consagrados nos Açores e internacionalmente (em especial nos Estados Unidos) – a par de um persistente e incansável empenho pessoal directo (ainda institucionalmente garantido e viabilizado com lucidez pela Câmara Municipal de Ponta Delgada) na inestimável salvaguarda, recuperação e arquivo dos espaços, símbolos, objectos e demais legados da Sinagoga Sahar Hassamaim de Ponta Delgada e da antiga Comunidade Judaica micaelense –, em boa hora acaba agora José de Almeida Mello de editar um novo e longo artigo no jornal “Correio dos Açores”, em bem adequada sequência diária ali publicado entre os dias 19 e 22 do corrente mês de Janeiro.

O artigo, como o seu autor anunciava logo na respectiva introdução, abordou “o interesse de judeus norte-americanos nos legados sagrados da Sinagoga Sahar Hassamaim”, desenrolando-se “segundo duas grandes linhas: a primeira seguindo a viagem a viagem de Barry Dov Schwartz [rabino norte-americo] a Ponta Delgada, em 1965, que no seu relatório refere os legados hebraicos de Ponta Delgada, datando-os de entre os séculos XV e XVII (quando na verdade são do século XIX...); a segunda abordando o interesse dos judeus norte-americanos, com destaque para quatro (4) rabinos, em adquirirem esses mesmos legados (...) com o intuito de os levarem para os Estados Unidos.


– E mais logo precisava o investigador micaelense: “O interesse dos judeus americanos na nossa Sinagoga e nos seus legados manifestou-se depois em dois momentos e modos: o primeiro pela tentativa de compra directa; o segundo através de um apoio financeiro à Sinagoga, procurando garantir por esse meio a salvaguarda dos seus declarados interesses na obtenção daqueles legados sagrados, quando apenas restasse só um judeu em Ponta Delgada”.

2. Li, naturalmente, com grande atenção e interesse, toda essa importante série de textos que aquele historiador micaelense e presidente da Associação dos Amigos da Sinagoga generosamente entendeu dever difundir publicamente, tanto mais quanto desse modo se procedeu a uma divulgação de fontes documentais inéditas e doravante imprescindíveis para a elucidação fundamentada e a compreensão situada da particular História do Judaísmo nos Açores, no quadro geral da História dos Açores e da Diáspora Judaica.


Trata-se assim, para além do mais, de um género de revelação e disponibilização de fontes semelhante – à respectiva dimensão e âmbito temático, evidentemente – àquela que consta de outros Repositórios histórico-documentais clássicos (Arquivos, Anais, etc.) e que constituem peças indispensáveis para o estudo multidisciplinar e a compreensão aprofundada dos factores, agentes, actores, estruturas, mentalidades, valores e percursos determinantes da vida colectiva, social e pessoal ao longo do tempo das nossas comunidades insulares hebraicas e não só.


– Felicito pois novamente o Dr. José de Almeida Mello e congratulo-me com a louvável publicação destes seus textos no "Correio dos Açores", registando também aqui as amáveis referências pessoais (e as motivadoras sugestões solidárias...) que me fez para que, de modo complementar quando não alternativo, continuasse eu próprio o meu anterior trabalho de investigação, análise crítica e reflexão sobre temáticas locais afins ou correlacionáveis com aquelas que abordou da História do Judaísmo nos Açores (com maior ênfase para a ilha Terceira), mas também com outras, mais universais, com as suas heranças e destinos socio-históricos, religiosos, político-institucionais, filosóficos, simbólicos e existenciais.


De resto, de todos estes actuais artigos de José de Almeida Mello, poderei dizer o que afirmei anteriormente em diversas ocasiões e também sobre o seu belíssimo livro-mensagem sobre a Sinagoga Sahar Hassamaim de Ponta Delgada (Ponta Delgada, Publiçor, 2009), – um “notável projecto e obra de História, Recuperação e Conservação  (então já rigoroso, promissor e premonitório – e realmente tão profético e visionário no seu aduzido trabalho – quanto dele os luminosos frutos testemunharam, agora a maior evidência, a riqueza das suas reais, comprovadas e imensas potencialidades, aliás exemplarmente reveladas a quando da mundialmente divulgada abertura desta Sinagoga, e da crescente e interessada vaga de visitantes que começaram e continuarão por certo a admirar tão assinalável herança da presença hebraica nos Açores”.


– Obra, sublinhei ainda, que, “para além do seu evidente valor intrínseco como repertório documental, inventário patrimonial e verdadeiro manifesto em prol da recuperação daquele paradigmático monumento comunitário e símbolo religioso, socio-histórico e cultural dos Açores e do Povo de Israel, vale também como a face primeira de um projecto cívico e de resistência memorial  (devidamente suportados por diversas e irmanadas instituições regionais, nacionais, hebraicas e norte-americanas), tanto mais justificado, retroactiva e prospectivamente, quanto a obra feita e a palavra cumprida foram – ao contrário do que teria sido uma cedência comodista, cobarde ou apenas preguiçosa, quase como a de Jefté, segundo o Talmude lido por Elie Wiesel... –,  um verdadeiro protesto cívico, teórico e prático, contra a indiferença e contra  desleixos,   ignorâncias e recorrentes ignomínias civilizacionais...”.


3. No que ao artigo em específico começo de apreciação hoje respeita – “Ainda sobre as Toras da Sinagoga de Ponta Delgada e a Torah emprestada à Base das Lajes em 1966” – podemos entretanto adiantar com satisfação que, juntamente com muitos outros dos textos que o autor tem vindo a publicar, virão os mesmos merecida e felizmente a ser reunidos em livro que prefaciarei com gosto e grato empenho.

– Em próximas Crónicas analisarei em detalhe o teor e as informações destes últimos e citados de José de Almeida Mello, confrontando os seus conteúdos e pistas documentais e factuais com outros testemunhos, fontes e contextos terceirenses e norte-americanos (nomeadamente os existentes na Base das Lajes), para articular depois e finalmente os inéditos elementos da matéria aqui exposta pelo historiador micaelense com as conhecidas e mais ou menos problemáticas (duvidosas e/ou ficcionais...) narrativas e estórias sobre a mesma história (isto é, a da Tora cedida de Ponta Delgada e a “das Toras” ditas “do Porto Judeu” e “de Rabo de Peixe”...), cenários nunca dantes realmente apurados em todos os seus misteriosos e enrolados contornos institucionais, socio-religiosos, político-diplomáticos, económicos e patrimoniais açorianos, nacionais e internacionais, como a seu tempo e desmistificador modo se há-de procurar desenrolar...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 28.01.2017):



























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 28.01.2017):





























RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/do-resgate-da-sinagoga-a-perpetuacao-dos-legados-1_52886,
e Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3236




sábado, novembro 19, 2016


As Famílias da Caixa
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Apesar das mudanças de paradigma, nomenclaturas e categorias sistematizadas em Filosofia da Linguagem e nas pragmáticas da Linguística – algumas outrora vertidas em programas escolares como heranças chomskianas para entendimento de sintaxes, estruturas profundas da cognição e actos de fala (conquanto em confronto de inatismos e construtivismos, e muitas delas subordinadas a modalidades gerativas ou generativas – oscilando-se entre termos anglo-saxónicos e francesismos... – recorde-se, com diagramas, árvores, sintagmas e indicadores) –, a verdade é que continuam válidos conceitos e expressões bastante úteis para a compreensão dos elementos, estruturas materiais e intencionais da Linguagem, da Língua e da Fala, tal como se nota nos manuais e áreas específicas (Fonética, Morfologia, Sintaxe, Semântica, Léxico, Discurso e Retórica) das Gramáticas em vigência.



Porém vem isto ainda a propósito analógico da provecta classificação da formação de palavras em parentela (palavras da mesma família), por relação àquelas que têm a mesma raiz ou radical (dita “base nominal, adjectival ou verbal”) associada a prefixos e sufixos, sendo que tal processo também potencia o uso retórico e simbólico de novas intenções significativas:


– É o caso de Caixa, onde depósito de caixinhas, caixotes de despudor, encaixes de capital e desencaixotamento de afrontas à Lei, ao Fisco, à Justiça e à Soberania dos mais altos órgãos do Estado, continuam a marcar os caixas em serviço político-partidário, conspurcando as mentes e as línguas do Governo e da AR encaixilhadas pela serventia da balbuciação e da dislexia ético-política (e ideológica?!) de um BE rendido e avezado aos vícios do sistema e regime estabelecidos, e de um PCP – até ele submisso e convertido? – encaixotando-se agora com os neófitos “radicais pequeno-burgueses”, e cheios ambos de “decalques e clichés” onde “existem numerosas contradições” (quiçá tumbas da História e da Democracia)...


E tudo isto acontece – arrastando-se dia após dia este jogo de Rolha, Cabra-Cega ou Alta Barraca, com novos documentos e episódios escondidos ou vendados sob a venda de situações de excepção, conluios ou cedência a encobrimentos de desconfiar, e sem que ordem de despejo ou imediata revogação de contratos milionários seja pedida ou pronunciada por ninguém... –, visto porventura o felizardo PS como mal menor (realmente um caixão de “socialistas” menores!) nessa geringonça frentista que tem servido (e bem!) para suposta “blocagem” a uma (outra) direita ou a um (outro) centro-direita/esquerda indistintos, que os irá derrotar, cedo ou tarde, então a todos, em conjunto!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 22.11.2016):






















e Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3215.

1.ª versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 19.11.2016):




























quinta-feira, novembro 03, 2016


ENTREVISTA 
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Nova Instrução da Igreja levanta questões
muito complexas sobre a Ressurreição

– A Santa Sé acaba de publicar uma Instrução sobre Sepulturas, Cremação e Cinzas dos Defuntos. Como situa e que resumo faz desse texto?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) - A Instrução Ad resurgendum cum Christo (“Para ressuscitar com Cristo”) provém da CDF (Congregação para a Doutrina da Fé), tendo sido aprovada em 02.03.2016, assinada pelo Papa Francisco (18.03) e publicada em 15 de Agosto último (sintomática e significativamente coincidindo com a data da Festividade da Assunção de Maria...).

O texto pretende, em primeiro lugar, retomar – “a fim de repôr”, sublinha... – as razões doutrinais e pastoraisda preferência a dar à sepultura dos corpos e, ao mesmo tempo, das normas sobre o que diz respeito à conservação das cinzas no caso da cremação”.


– Quais os pressupostos e constatações deste documento?

EFR - A Instrução parte logo de uma série de constatações de facto, sendo o seu motivo central o reconhecimento da Cremação ter vindo a estar cada vez mais difundida “em muitas Nações”, com a propagação de “novas ideias contrastantes da fé da Igreja” e demais comportamentos, ritos e “concepções erróneas sobre a morte” (como sejam o aniquilamento definitivo da pessoa, a fusão com a Mãe natureza, a reincarnação, a desejada libertação do corpo, de permeio com equívocos panteístas, naturalistas ou niilistas, etc.), ali apontados para depois serem associados a formas julgadas pouco idóneas “para exprimir a fé e a esperança na ressurreição corporal”, ao contrário – aqui repetido pelo magistério eclesiástico – da preferível e preferida Inumação (isto é, da sepultura integral na terra dos compostos orgânicos humanos falecidos), o que – ainda segundo a doutrina reafirmada – “responde adequadamente à piedade e ao respeito devido aos corpos dos fiéis defuntos”, favorecendo “a memória e a oração”, e “a veneração dos mártires e santos”!


– Nestes pressupostos, em conformidade e coerência internas, digamos assim, adianta a Instrução que, exceptuando motivos “de tipo higiénico, económico ou social”, é sempre preterida a Cremação (conquanto não condenada de modo absoluto), sendo porém interditas a dispersão (“no ar, na terra ou na água, ou, ainda em qualquer outro lugar”), a divisão ou arrecadação doméstica, e outros aproveitamentos e práticas “inconvenientes ou supersticiosas” das cinzas dos mortos, como “a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objectos, tendo presente que para tal modo de proceder não podem ser adoptadas razões de ordem higiénica, social ou económica a motivar a escolha da cremação”. 

Todavia temos também ali um outro conjunto de questões intencionalmente interligadas no mesmo discurso alusivo e no sobreposto contexto justificativo das matérias aludidas...



– Como caracteriza essas questões?

EFR – Diria que esse argumentário compactua, uniformizando em linearidades implícitas alguns universos de crença ou fé com formulações dogmáticas, sentidos hermenêuticos e exegéticos nem sempre compatíveis ou convergentes, dedutíveis ou historico-criticamente concordantes, tanto mais quanto os subentende e exprime, sobretudo nas passagens doutrinárias e segundo categorias conceptuais disputáveis tanto no âmbito da Teologia quanto no domínio disciplinar próprio da Filosofia (particularmente da Antropologia Filosófica...).

– E isto é especialmente notório quando, um pouco abruptamente, a partir dali, não somente se avalia ou propõe modelos de exéquias, ritos ou ofícios de cerimonial funerário e litúrgico, mas também comportamentos objectivos e subjectivos, valores religiosos, morais e motivacionais, hábitos devocionais, orantes e memoriais dos católicos enlutados, segundo um esquema bastante apriorístico e dedutivo (quase tautológico...), de entendimento, expectativa e esperança na Ressurreição.



– Que problemáticas específicas levanta este Documento, no que concerne à Teologia e à Filosofia?

EFR - A “Instrução” Ad resurgendum cum Christo levanta, veicula e rodeia antigas, complexas e controversas questões histórico-doutrinais, socioculturais, civilizacionais, simbólicas e religiosas, não só e desde sempre teológica e filosoficamente fundamentais, conhecidas, reflectidas, disputadas e hoje cada vez mais disputáveis, quanto, especialmente desde o século XIX, vieram as mesmas a tornar-se progressivamente reportáveis e associadas às transformações ideológicas, políticas, psicológicas, científicas e técnicas que tem reconfigurado imaginários e paradigmas identitários, individuais e colectivos de pessoas e instituições (nomeadamente das várias igrejas, crenças, credos, culturas e civilizações):

– No caso da Igreja Católica (e também das igrejas Ortodoxas e Protestantes), evidentemente, para além dos preceitos e códigos jurídicos, uma simples revisão sequencial e comparativa dos delineamentos papais, sinodais e episcopais (nem sempre uniformes nem lineares) revelaria isso mesmo, bastando atender aos pronunciamentos doutrinais face ao Modernismo e à Secularização; à Industrialização, à Epidemiologia, ao Urbanismo e à Demografia; à Globalização; às crises sociais, económicas e sanitárias; ao pluralismo político, social, ético e das mentalidades, etc. 


O tema cedo despertou regulamentação canónica, como no Concílio de Braga (563), e veio até a ser causa de excomunhão por Bonifácio VIII (em 1300), etc., por aí adiante, de modo que só em 1917, 1963 e 1969 o assunto foi retomado com novas orientações, respectivamente no Direito Canónico, nas recomendações da CDF e nas Regras Exequiais. Relembro porém que os bispos americanos, em 1997, conseguiram um indulto papal de modo a poderem celebrar missas de Requiem perante as cinzas dos seus defuntos...

De resto, o problema da Cremação, desde o Hinduísmo, o Budismo e as Civilizações Clássicas do Ocidente até à nossa contemporaneidade, pode ser estudado perante díspares quadros de visão do mundo, sociedade e destino dos homens e dos povos, em relação com os elementos naturais e cósmicos, devendo ser sempre perspectivado por relação, aceitação e repúdio, de motivos tradicionais ou conjunturais, histórico-culturais, religiosos ou sobrenaturais, normativos e penais (civis e canónicos), nomeadamente com a ocidentalização do Cristianismo entre os séculos V e VIII (Carlos Magno criminalizou-a em 789); durante a Peste Negra, no século XVII; com a Revolução Francesa e o Iluminismo; nos alvores do Liberalismo, da propaganda e do proselitismo maçónicos (v.g. em Itália, frente ao Vaticano...); no século XIX (especialmente em Inglaterra, Estados Unidos e Holanda), e – enfim – nos espaços ideológicos, simbólicos, totalitários e concentracionários cimentados pelos totalitarismos do século XX. E a situação é ainda hoje variada nos países anglo-saxónicos e latinos, no Norte e no Sul, na Ásia e na África...



– Quais as principais formulações críticas que encontra nesta Instrução?

EFR - Sem dúvida, primeiramente, as da Corporalidade e da Ressurreição, que – essas, sim – são de nuclear e maior importância ontológica, epistemológica, escatológica e ética, constituindo por isso objecto próprio e específico da reflexão filosófico-antropológica, teológica e metafísica, sem deixarem de ser assunto de natureza exegética, revelacional e bíblica (amiúde dogmaticamente moldadas...). 

Todavia, a Instrução não sendo um tratado teológico, permite e devia potenciar um debate aprofundado sobre todo o seu conteúdo, sem escamotear que permanecem ali indissociavelmente presentes e reflectidas categorias transcendentais e enunciados básicos da Cristologia, da Economia da Salvação, da História dos Dogmas e da Inteligência da Fé... E julgo mesmo que na vigente conjuntura socio-religiosa e cultural, esse desafio deveria ser assumido, e o mesmo trabalho realizado em consequência...


– E apesar de não ser este o lugar mediático mais adequado para uma consolidada abordagem desta questão, que tem tanto de problema como de mistério, quero em todo o caso acentuar que, se ou quando feita à margem ou na ignorância das legitimadas categorias próprias da Filosofia (v.g. da Escolástica) e da Teologia, a desejável compreensão destas questões será absolutamente lacunar e pouco mais que um fait-divers de curiosidades banais...

Ora, também por isso, é que esta Instrução, remetendo, como é reconhecido, para a facetada Piam et constantem (de 05.08.1963) e para o Vaticano II, em simultâneo com sintomáticas referências (algo contraditórias e forçadas, diga-se) para o De cura pro mortuis gerenda de S. Agostinho e para o De resurrectione carnis de Tertuliano, parece querer ignorar os termos críticos de toda a diversa (contemporânea e antiga) reflexão teológica e antropológica no campo da Escatologia!


– E nem era preciso passar, entre outros bem conhecidos, pelos notáveis contributos do nosso dilecto Karl Rahner; bastava reler o cardeal Josef Ratzinger, de quem o card. Gerhard Müller é aliás discípulo (e de cuja obra é especialista e divulgador), enquanto jocosamente vai verbalizando que às vezes “tem de corrigir” o actual Sumo Pontífice em “questões de dogma”, precisando que o Papa Francisco não é um “teólogo profissional”... E talvez não seja!

Mas ele, o actual Prefeito da CDF (antigo Santo Ofício), pelos vistos e lidos, também não aparenta lá ser um filósofo muito profundo e sistemático... 
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Entrevista ao jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo), efectuada no dia 28 de Outubro último e publicada na edição de 03.11.2016: